terça-feira, 10 de março de 2009

As fortunas que a família Maia esconde do Fisco

O QUE AGACIEL ESCONDE

Acima, a mansão de R$ 5 milhões de propriedade de Agaciel Maia (à esq.), que estava no nome do irmão João

Agaciel Maia, ex-diretor-geral do Senado, caiu por ocultar uma mansão. Seu irmão, o deputado João Maia, não declarou à Justiça Eleitoral um avião





O QUE JOÃO ESCONDE
O avião bimotor Sêneca que foi omitido da declaração de bens apresentada por João Maia (acima) à Justiça Eleitoral
Flagrado como dono de uma mansão de R$ 5 milhões não declarada ao Fisco, o ex-todo-poderoso diretor-geral do Senado Agaciel Maia caiu na semana passada. Foram 15 anos como guardião de um cofre de onde saem quase R$ 3 bilhões por ano, verba maior que o orçamento público de cidades importantes, como Porto Alegre. Querido por muitos senadores, “doutor Agaciel”, como era chamado, resistira firme a outros escândalos em que estivera sob suspeita de corrupção. Desta vez, foi demitido para tentar reduzir os desgastes à já combalida imagem do Senado. Mas o caso da mansão acabou por jogar luz sobre outro personagem, do outro lado do Congresso: o irmão de Agaciel, o deputado federal João Maia, do PR do Rio Grande do Norte.

João Maia era um deputado do baixo clero no exercício discreto de seu primeiro mandato. Ganhou notoriedade com a descoberta da mansão de R$ 5 milhões de Agaciel: era em nome dele, João Maia, que o imóvel estava registrado. Por causa do rolo do irmão, descobriu-se que, a exemplo de Agaciel, o deputado também esconde bens. Um deles chama a atenção: um avião. Maia, que chegou ao Congresso após uma campanha endinheirada que fez dele um dos deputados mais votados do Rio Grande do Norte, é dono de um bimotor Sêneca avaliado em meio milhão de reais que, igualzinho ao episódio da mansão, também não foi incluí­do em sua lista de bens declarados à Justiça Eleitoral. “Não está na minha declaração? Não acredito”, disse o deputado a ÉPOCA, na quinta-feira, com a cara de quem queria mostrar surpresa. “Vou mandar retificar já, vou retificar”, afirmou.

O avião omitido na declaração de bens de João Maia fica estacionado no setor de hangares do aeroporto de Natal. “Fica lá, tomando sol”, diz o deputado. A aeronave tem capacidade para um piloto e cinco passageiros e atinge velocidade de cruzeiro de 300 quilômetros por hora. Dentre os modelos de sua categoria, é tido como um avião bastante confortável – conforto que, por sinal, João Maia faz questão de compartilhar. O deputado só oculta o bimotor na declaração de bens. Os amigos e compadres da política não só sabem da existência do avião, como costumam utilizá-lo. Entre os passageiros frequentes do aviãozinho estão dois de seus conterrâneos mais proeminentes na política nacional: os senadores Garibaldi Alves (PMDB), ex-presidente do Senado, e Agripino Maia, líder do Democratas. “Eu empresto mesmo. Qual é o problema?”, afirma.

João Maia diz ter adquirido o avião antes de eleger-se deputado. Até por isso, ele deveria ter sido mencionado em sua relação de bens informada à Justiça Eleitoral. Não consta. O deputado afirma que comprou o bimotor por R$ 488 mil, de uma distribuidora de petróleo, e que o pagamento foi efetuado com dinheiro de suas próprias contas bancárias. “Foi uma transferência bancária”, diz. Ele só não sabe explicar a razão pela qual não declarou o avião. Na quinta-feira, disse que procuraria seus contadores em busca de explicação. “A minha contadora, no Rio, vai ter de dizer o que houve.” De lá para cá, o deputado não atendeu mais os telefonemas de ÉPOCA.

Apesar de carregarem o mesmo sobrenome de uma das principais oligarquias políticas do Rio Grande do Norte, o deputado João e seu irmão Agaciel nasceram em família pobre, em Jardim de Piranhas, no sertão potiguar. São parentes distantes dos Maias tradicionais. Ainda jovens, foram tentar a vida em Brasília. João era comunista convicto. No movimento estudantil, integrou as fileiras do Partido Comunista Brasileiro. Acabou expulso da Universidade de Brasília pela ditadura. Mudou-se para o Rio de Janeiro. Agaciel permaneceu na capital federal e conseguiu a façanha de enriquecer na vida pública, a ponto de morar numa casa avaliada em R$ 5 milhões. João virou professor universitário no Rio de Janeiro. Só voltou a Brasília mais tarde. Primeiro, como burocrata no governo de José Sarney. Depois, no governo Collor, foi um dos principais integrantes da equipe de Zélia Cardoso de Mello no Ministério da Fazenda.

João Maia diz que enriqueceu depois de deixar o governo Collor. “Foi quando eu fui ganhar dinheiro na iniciativa privada”, afirma. De volta ao Rio, Maia atuou ao lado do empresário Nelson Tanure na aquisição de estaleiros falidos. As transações foram patrocinadas, indiretamente, por fundos de pensão estatais controlados pelo governo do qual João Maia tinha acabado de sair.

Há outros rolos do deputado no mundo empresarial. Ele aparece como sócio do irmão Agaciel numa empresa aberta em 1994, no Rio Grande do Norte. No papel, seria uma rádio. “Essa empresa não funciona na prática”, diz. “Eu não tenho negócios com o Agaciel.” João Maia também figura como sócio de empresas de tecnologia em São Paulo que afirma desconhecer – uma delas, aliás, deve à Receita Federal e à Previdência. Em Caicó, no sertão potiguar, o deputado pôs em nome de uma funcionária, Maria Suerda Medeiros, 51% das ações de uma firma que usa para arrendar a rádio de maior sucesso da região, a Caicó AM. O arrendamento de uma concessão pública, operação sobre a qual o deputado fala sem reservas, é ilegal. Como se vê, a exemplo do irmão, João Maia também tem muitas coisas a explicar.(Revista Época)

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