segunda-feira, 7 de junho de 2010

Para analistas, real tem maior resistência às oscilações do dólar

O nervosismo que voltou ao mercado de moedas na última sexta-feira, dia em que o euro atingiu mínimas há tempos não vistas e o dólar se valorizou na maioria das praças do mundo, deve permanecer no radar ainda por muito tempo. Mas, ainda que o real não esteja imune aos ajustes de posição que pressionam os ativos, as oscilações da moeda brasileira devem ficar restritas ao curto prazo. A avaliação de analistas é de que, diferentemente dos países desenvolvidos, as condições fiscais e do sistema bancário do país continuarão atraindo capital. E que, por isso, os movimentos aqui tendem a ser mais brandos e pontuais.

Na sexta-feira passada, foi a vez da Hungria entrar no noticiário e deflagrar uma nova onda de correção dos mercados. Candidata a ser a próxima Grécia, segundo o próprio governo, a apreensão com a situação fiscal daquele país levou o euro ao menor nível dos últimos quatro anos, abaixo do piso psicológico de US$ 1,20. O país da Europa Oriental não pertence à zona do euro, mas possui uma dívida equivalente a US$ 70 bilhões nas mãos de outros países, sendo a maior parte deles europeus. Ou seja, mais perdas para os tesouros da União Europeia à vista.

O real não escapou da tendência global. Num horizonte mais longo, é possível observar que a desvalorização do real é modesta. O primeiro semestre está por um fio e o real cai 6,24% frente ao dólar. No caso do peso chileno, a desvalorização é de 6,26%. Já a libra esterlina perde 10,61% e o euro, 16,44%.

O estrategista do Nomura Securities, em Nova York, Tony Volpon, diz que o real vem apresentando um desempenho mais positivo desde o final do ano passado, quando as moedas dos países do Hemisfério Norte ampliaram as perdas. Ele observa que a moeda brasileira, historicamente, mantém uma relação estreita com uma cesta de moedas acompanhada pelo Federal Reserve (o Banco Central dos EUA), composta, além do euro, pelo iene, livra esterlina, dólar canadense e australiano. Desde o final do ano passado, entretanto, a desvalorização do real é mais modesta do que a da cesta de moedas. "Se a relação entre essa cesta e o real se mantivesse, a moeda brasileira deveria estar em US$ 2,40 hoje", afirma.

O que explica essa maior resistência do real, explica, é o fluxo de recursos para a renda fixa no Brasil. "Não há sinais de entrada de dinheiro de hedge funds, nem para bolsas, mas sim para renda fixa, especialmente para papéis públicos", afirma Volpon. A realocação do dinheiro global, diz, mostra que investidores não querem mesmo ser credores de alguns países desenvolvidos e veem em países emergentes uma boa opção. "EUA, Japão e União Europeia estão superendividando seus Estados, o que torna a situação fiscal muito séria", diz.

Assim, as oscilações que se vê no real "refletem mais o enfraquecimento do euro do que o fortalecimento do dólar", explica Roberto Padovani, estrategista do banco WestLB.

O receio predominante de ruptura na Europa é, segundo Padovani, o fator de curto prazo que está movendo os mercados. O pano de fundo é a dúvida com o crescimento global.

O estrategista do WestLB considera que o real acompanhará a volatilidade global e que não dá para dizer que o real entrou em processo de desvalorização. Ao contrário, pondera, os fundamentos da economia indicam valorização.

Mas, se a situação dos EUA também é frágil, por que o dólar se fortalece? O economista da MCM, Cláudio Adilson Gonçalez, explica que os EUA têm espaço para elevar sua carga tributária e contam com um setor privado mais dinâmico, o que ajudarão a enfrentar os desequilíbrios fiscais. Os títulos da dívida americana são considerados os mais seguros, atrairão dinheiro e, com isso, o dólar seguirá fortalecido. "Não me surpreenderia se euro e dólar alcançarem a paridade no final deste ano", afirma.

Sobre o Brasil, ele não vê o real em queda continuada. O país tem o setor bancário sadio é um grande produtor de commodities e tem contas públicas sob controle.

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