sábado, 5 de dezembro de 2009

Escândalo do panetone encerra o ciclo de um partido, o DEM, que se acostumou a apontar o dedo

Fim de ano, mais que uma volta no calendário, é também o encerramento de um ciclo. Dá-se adeus ao ano velho e pede-se que "tudo se realize no ano que vai nascer; muito dinheiro no bolso, saúde pra dar e vender". No mais é festa, uma baita comilança: pernis, perus, champanhe, sidras, frutas de estação e, é claro, panetones. Este último, guloseima de Natal que, neste ano, entra para o rol do escárnio, ou, sabe-se lá, para o anedotário político nacional que, nos últimos tempos, tem sido engrossado por uma penca de escândalos. De quebra, encerra o ciclo em que o Democratas se dava ao direito de falar do "cisco no olho do outro" sem considerar a trave que vai no seu.

É uma curiosa coincidência que o escândalo em que se afunda o governador do Distrito Federal, José Roberto Arruda, ocorra justamente sob os auspícios de Papai Noel, neste período do ano. Foi mesmo um presentinho deixado sob a árvore de Natal, ao lado dos sapatinhos da ministra Dilma Rousseff, do presidente Lula e de todo o PT. Um cenário sem presépio, mas de uma enorme presepada, que, é claro, será explorado no ano que vem, no mínimo para anular o discurso moralista do adversário.

São as ironias da política: os tijolos de que o DEM, de repente, se fez useiro e vezeiro de atirar nas vidraças alheias, voltam-lhe, agora, como bumerangue, no meio da testa, deixando sem voz os mais falantes; fazendo gaguejar os mais eloquentes; revelando o desde sempre inocultável mal-estar de peessedebistas com a companhia do antigo PFL, oligarquia tacanha que nunca esteve à altura da aristocracia ilustrada tucana. Verdade que as vidraças já atingidas nunca foram de igrejas, mas o farisaísmo é realmente uma cobra que pica a si mesmo. Agora o DEM passa a saber disso.

As cenas em horário nobre falam por si. Mas choca o fato de que, infelizmente, nem escandalizam tanto assim; o escândalo tem se banalizado. No pastelão da política nacional, tornaram-se vulgares os maços de dinheiros aos montes e o descaramento com que se negocia a propina, como se fosse a coisa mais trivial de feira livre. É água no moinho de quem acredita que "política é coisa pra malandro". De um modo ou de outro, os "Panetones de Arruda", ao contrário da erva, atraem o mau-olhado da cidadania, que a tudo despreza na política. O que é um erro, afasta as pessoas de bem do bem comum, isola os que ainda pelejam.

No mais, não é a primeira vez em que comida e política se misturam, promovendo uma grande lambança: a começar pela frase que se atribui a Maria Antonieta, que, de fato, a mulher de Luís XVI jamais pronunciou: "Se não há pão, dê-lhes brioches", teria dito, sem cerimônia e sem ciência do que acontecia no entorno de Versalhes. A maldade com a rainha deve ter sido coisa de Jean-Paul Marat ou de Camille Desmoulins, os dois maiores jornalistas, línguas de trapo e difamadores da Revolução. O fato é que a frase atribuída a Maria Antonieta denunciava o indesmentível distanciamento entre a realeza e o povo, que surrava padeiros e pedia pão.

Marat e Desmoulins pregaram a pecha no inimigo. Folclore ou anedota, não importa: a frase de nonsense ficou para a posteridade como símbolo de insensibilidade política e social, estupidez ou escárnio. Por essas e outras, Maria perdeu a cabeça numa guilhotina da Revolução Francesa. Aqui, o governador foi seu próprio Marat e afiou a lâmina da própria guilhotina. A história dos panetones foi recebida como símbolo mais acabado da desfaçatez e do distanciamento entre governantes e o povo.

É mais uma vez culinária e política se misturando como um angu de caroço duro de engolir. Em sua posse, o presidente Lula afirmou que se sentiria realizado e feliz se, ao final de seu mandato, todo brasileiro tivesse assegurado o direito de pelo menos três refeições por dia. Logo propôs o Fome Zero, um insucesso inicial de crítica e público que teve até de mudar de nome. Em outro contexto, Fernando Henrique Cardoso teria declarado ter o pé na cozinha, e, em campanha, encarou com coragem uma bela buchada de bode. Itamar Franco e seus pães de queijo fizeram história. O pão com mortadela de Jânio Quadros foi marca de sua histrionice. Sinal da essencialidade do tema - noutra dessas frases atribuídas -, teria Karl Marx sentenciado: "Primeiro a barriga". A fome precede a ideologia, mais vital, mais visceral. Não comemos sonhos - a não ser os de padaria -, como se sabe.

Um jornalista amigo me alertou que na Alemanha existe um pão de Natal, feito com massa doce e frutas cristalizadas, muito parecido com o panetone; seu nome é stollen (em inglês, stolen é "roubado"). Ironia da língua dos filósofos com a política nacional! "A gente não quer só comida", Arruda sabe, a gente quer comidinha diferente, quer uma guloseima pro fim de ano, um cala-boca qualquer! Misto de Maria Antonieta, Lula, FHC, Itamar, Jânio e Marx, o governador do Distrito Federal, põe sobre a mesa seus panetones, inova no cardápio. Sai do governo para passar à história - que história.

Como na frase de Maria Antonieta, não sabemos se o "panetone de Arruda" foi tergiversação, estupidez ou escárnio. Talvez um ensopadinho disso tudo. O certo é que dificilmente o pescoço de José Roberto Arruda deixará de sentir a afiada e fria lâmina da sobrevivência política do DEM. Naquelas cercanias, neste ano, o espírito de Natal será mesmo o do dr. Joseph Ignace Guillotin.Estadão

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