terça-feira, 28 de abril de 2009

Seu deputado é turista?


A revelação de um escândalo com dinheiro público costuma provocar dois tipos óbvios de resposta dos acusados: negam o delito ou prometem que não fazem mais.


É especialmente notável que, no caso da farra de senadores e deputados brasileiros com passagens aéreas, essas duas reações têm sido notáveis pela escassez.


“Nunca fiquei com a consciência pesada”, disse um deputado do PRB pernambucano, argumentando que, se as verbas existem, é para serem usadas.


Não deixa de ter uma pitada cínica de razão. Ele está dizendo que, se a pátria não desejava que ele pecasse, que não colocasse a tentação ao seu alcance.


Mas a desculpa permanece esfarrapada: ela ignora o que poderia ser chamado de presunção de honestidade. E, no fim das contas, onde está a virtude quando não existe a possibilidade do pecado? Isso é particularmente importante no caso de quem recebe mandato popular, o que significa a incumbência de agir não apenas em nome do povo mas exclusivamente em benefício dele.


Mandato é representação — e se o mandatário o usa para si, e não para quem o elegeu, está, simplesmente, traindo o eleitor.


No caso das passagens aéreas, o cinismo dos representantes é absoluto. No ano passado um deputado —que, talvez não por coincidência, já deixou a casa — apresentou um projeto parcialmente moralizador. Determinava que as milhagens aéreas produzidas por viagens oficiais fossem usadas para outras missões oficiais, e não para benefício pessoal do primeiro viajante.


A Câmara pouparia com isso uns dez por cento do que gasta com viagens de políticos e funcionários. Seria mais remendo do que remédio — mas, como talvez fosse previsível, o projeto não decolou. Não surpreende: propostas de deputados visando a eliminar ou simplesmente a reduzir mordomias costumam ter vida curta e morte inglória.


Todas essas constatações induzem ao pessimismo. Mas uma desmoralização total, definitiva, do Congresso não serve a nenhuma causa decente.


A indignação da opinião pública e dos bolsões de decência que existem no próprio Congresso é justa e necessária. Mas só continuará a ser necessária e justa se conduzir a uma reforma moralizadora.


A sociedade — mesmo que para isso seja preciso ignorar todos os precedentes — tem o dever de acreditar que essa reforma é possível, e contribuir para que aconteça, com a manifestação de sua indignação e o cuidado de votar com consciência.


O que é relativamente simples, pelo menos quando o eleitor se dispõe a reeleger um representante. Não é complicado saber se ele foi ou não um turista às suas custas.

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